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 Toscânia, capítulo final 
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Mensagem Toscânia, capítulo final
Aqui concluo o meu périplo por terras toscanas, ressaltando aquelas povoações que, além das urbes de Florença, Siena, Pisa e Arezzo, são de menores dimensões mas não menos encantatórias. Mss tenho de admitir que, a determinada altura, já estava a ficar um bocado farto detanta pedra... Ok, é tudo muito bonitinho, e tal, mas ao fim de largas centenas de quilómetros, já eram pedras e ruínas a mais, ao ponto de não ficar estarrecido como com as primeiras que vira. Por isso mesmo, Lucca foi uma lufada de ar freco: recordo uma localidade mananeirinha, colorida e surpreendente Piazza del Mercato, um espaço ao ar livre em forma oval, recordando que era ali que se localizava a antiga arena do anfiteatro. Muitas das pedras originais “desapareceram” – foram utilizadas para a construção de casas e palácios – mas quem, a partir do centro, olhar em redor para as habitações de tons pastel, consegue imaginar facilmente os contornos do anfiteatro. Os acessos à praça, aliás, são feitos através de túneis por baixo das casas, e os maiores – orientados segundo os pontos cardeais – serviam para que os gladiadores e as feras… entrassem no “palco”. Era o auge do “panen et circenses” romano, ou seja, “pão e circo” para entreter a populaça!

Virei as agulhas novamente para a região de Siena, mas, para que confessara que estava saturado de tanta pedra, voltei a render-me a essas autênticas jóias que são Monteriggione, Colle di Val d’Elsa, San Gimignano e Volterra. A penúltima, então, é uma visão fantástica, mesmo quando se observa ao longe a sua silhueta inconfundível. Hoje como ontem, a terra das torres altaneiras vigia e chama a atenção dos viajantes. Antigamente, como bússola orientadora dos peregrinos que demandavam Roma e a Santa Sé, agora, como alvo do interesse de um número cada vez maior de pessoas que a descobriram. Eu, confesso, perdi-me de amores há alguns anos e, sempre que posso, não resisto ao seu chamamento. Gosto de San Gimignano como gosto de poucas terras, gosto de percorrer infinitas vezes os caminhos labirínticos que sobem e descem constantemente como um carrossel de feira, gosto de admirar cada uma das treze torres que o tempo preservou como se fosse a primeira vez, mas gosto, sobretudo, de deixar escorrer as horas na Piazza della Cisterna, sentado nas cadeirinhas de palha da esplanada do “La Cisterna”, o meu poiso preferido e local de encontro para matar saudades. Peço um bichiere de Chianti, desfruto a calma interior e o burburinho de gentes que me cerca e passa constantemente em frente e… sim, tudo mexe, tudo gira e, simultaneamente, tudo parece estagnado no tempo. A noite cai e San Gimignano mantém-me amarrado como um prisioneiro, e é à luz dos archotes e da miríade de luzinhas que encontro o caminho de saída, um caminho de ida e volta, pois, sei-o, San Gimignano é como se fosse a minha segunda casa.

E voltei ao desfile de vilazinhas em vilazinhas empoleiradas no alto das colinas: Cortona, Montepulciano, Pienza, Montalcino e Massa Marittima… Até que, não muito distante dos limites fronteiriços com as províncias da Úmbria e da Lázio, encontrei algo realmente de diferente: Pitigliano, Sorano e Sovana merecem, por si só, que a Toscânia seja visitada, pela peculiaridade das suas situações, pelo enquadramento cénico e porque, mais que em qualquer outro lugar, os habitantes exibem com garbo as suas origens etruscas. A chegada a qualquer uma delas impressiona e obriga a deter a marcha não sendo por acaso que parecem ninhos de águia, autênticas gémeas das alturas – estão encaixadas em falésias, não se sabendo o que é rocha, o que é pedra, o que é montanha ou o que é casario!
Lembro-me de estar a em Montalcino ao por do sol, a beber um copo do divino Brunello, observando os últimos dardos do astro-rei através do néctar. Tais memórias fizeram-me reflectir sobre os meus trajectos – depois da pedra, porque não o estado líquido?
Entusiasmado, parti no dia seguinte rumo à agua. Destino: costa tirrena; primeira paragem: golfo de Génova. Mas, aqui, o entusiasmo arrefeceu…. A mais famosa estância de veraneio, Viareggio, desiludiu e bastante. Acredito que tenha sido concorrida nas décadas de 20 e 30 do século passado, mas, hoje, é apenas uma pálida sombra desses tempos de glória. É uma praia de famílias, mas de velhos jarretas e velhas pindéricas – sem ofensa! – que seguramente ali vão todos os Verões, nem que seja para recordar as memórias da juventude.
A curta distância, gostei bem mais de Torre del Lago Puccini, entre o mar e o lago Massaciùccoli. Segui as indicações do lago e, junto aos canaviais e juncos das margens, sorri perante a alegria dos patos e das muitas aves que ali nidificam. Bem melhor que as “múmias” de Viareggio!
Mas o que eu queria era mar mesmo a sério, por isso parti sem demoras para o golfo de Follonica, numa sucessão de praias, marginais povoadas por esplanadas e gelatarias e uma revelação paradisíaca na cala Violina – acessível a pé –, onde o remanso de areias claras e águas transparentes são um concerto “ao vivo” para os adoradores de praia e do sol. E cheguei ao Promontório Argentário, que até ao século XVIII era uma ilha não muito distante da costa, mas que um fenómeno provocado pelo assentamento de terras e areias fez com que se criassem duas ligações naturais ao continente, duas “pontes” maravilhosas que, de um lado, são banhadas pelo mar e, do outro, formam uma espécie de lagoa interior – a laguna de Orbetello – de águas mansas, baixas e clarinhas. Orbetello, a principal localidade, situa-se num desses “braços” naturais, e é a partir dela que se acede à antiga ilha do Promontório Argentário, onde a cidade de Porto Santo Stefano faz lembrar o ambiente monegasco ou a elegância de Portofino, na Ligúria.
Mas a minha componente aquática da Toscana ficaria incompleta sem a menção de dois casos sui generis: as concorridas termas de Saturnia, que primam pelo cenário surreal de uma série de cascatas distribuídas por socalcos naturais de calcário que desaguam num rio de tonalidades azuis-esverdeadas; e a minúscula povoação de Bagno Vignoni, cuja praça central – que abrange o perímetro de quase toda a aldeia – é… um tanque de água! A vasta “piscina” resulta do aproveitamento das propriedades medicinais da água, descoberta pelos romanos e desenvolvida e explorada como termas ao longo da Idade Média. Bagno Vignoni é um ponto ínfimo no mapa, mas é ao olhar para a água rasa e cristalina da praça que nos apercebemos de quão antiga é a região, como se os reflexos deste espelho de água representassem a história, a cultura, a tradição e o espírito desta imensamente bela terra Toscana.

Para outras núpcias, ficam demandas posteriores por outras regiões transalpinas e que me ficaram com agrado na memória: San Remo, Cannes, Nice,Turim, Milão, os lagos Maggiore, Como e Garda, Bréscia, Veneza, Roma, os arquipélagos das Pontini e Eólicas, as ilhas de Ponza e Capri, Nápoles, a Costa de Amalfi e as grandes ilha que são a Sardenha e a Sicília. Mas isso são outras “estórias”...

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25 Jul 2013
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Mensagem Re: Toscânia, capítulo final
Plutão, não obstante eu já sentísse um certo fascínio por esta região do mundo, tens andado aqui a espicaçar a malta com as tuas opiniões e perspectivas personalizadas, que muito me têm seduzido pessoalmente.

Contudo, acabei de passar por um enormíssimo frete para planear as minhas vancaces na Toscânia.

Como não há cliente hoje em dia que esteja disposto a comprar em modo de frete - tipo voos por demasiado caros nos comparativos, ou com escalas do outro mundo - acabei de fechar 2 voos na Lufthansa e 4 dias no i31 em Berlin que fica relativamente perto do Holocaust Memorial, que eu sou para cima de afficionado pela temática da WWII.

Portanto, não tem nada a ver o cú com as calças, mas literalmente perdi a pachorra com o planning para Itália ao fim da 1ª hora de jogo.

Fica para o ano!

abraço e mt obrigado!

29 Jul 2013
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Mensagem Re: Toscânia, capítulo final
La bella Toscania... a minha região preferida no meu país europeu preferido (exceptuando o meu é claro... :lol: )... la bella Itália! :smt045 :smt049
Já visitei a Peninsula Itálica cerca de uma dezena de ocasiões! :smt045 E é sempre com enorme prazer que a cada nova oportunidade o faço! :smt045 Porque gosto da luz e do sol, da comida e da bebida, das gentes e dos costumes, da modernidade e da tradição, da moda e do classicismo, do romance e de Florença (e de Veneza, e de Roma, e de Verona, e de Génova, e do Lago Como, e da Sardenha, e da... etc... etc...).
Então a Toscânia (Firenze e Siena, Livorno e Pisa, Lucca e Arezzo) :smt050 :smt050 :smt050 , divinal, imperdível e imperdoável (deixar de lá ir)! :smt045
Com todo o prazer falarei disso melhor mais tarde! :smt023

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Sempre me disseram... não fodas amanhã o que podes foder hoje!

08 Out 2013
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