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 Convívio em Lisboa – Segredos em Pessoa 
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Mensagem Convívio em Lisboa – Segredos em Pessoa
Existirá uma Lisboa de Fernando Pessoa assim como existe uma Praga de Kafka, uma Dublin de Joyce ou uma Trieste de Svevo?

Lisboa enquanto cidade com as suas ruas, praças, cafés, os lugares em que decorreu, como num teatro sempre invariável, a aventura humana do personagem histórico Fernando Pessoa não deixou as suas pegadas, ou apenas as deixou em transfiguração provinciana.

Mas qual é, pois, a Lisboa que emerge de toda a obra de Fernando Pessoa?

A Lisboa da infância. O primeiro cenário fora o Largo de São Carlos ao Chiado, centro comercial da cidade. O centro de convívio de Lisboa onde Fernando Pessoa nascera a 13 de Junho de 1888, dia de Santo António, que não é o padroeiro de Lisboa, mas sim São Vicente. Nasceu num quarto andar de um antigo edifício, em frente do teatro mais rico e elegante da cidade, o Teatro São Carlos que oferecera à capital portuguesa o lustre próprio de um teatro de ópera.

O convívio próprio de Pessoa e a alta classe de Lisboa....

A lembrança desses anos fica, pois, conotada pelo convívio próprio de uma representação teatral da alta sociedade de Lisboa, mas também de uma visão provinciana onde não falta as acompanhantes de luxo que transformavam este convívio em Lisboa, numa cena burlesca.

O universo infantil do Largo de São Carlos é delimitado pelo rio Tejo que se podia ver das janelas de casa:

Era na velha casa sossegada ao pé do rio...
As janelas do meu quarto, e as da casa-de-jantar também,
Davam, por sobre umas casas baixas, para o rio próximo,
Para o Tejo...

O convívio em Lisboa na zona do Chiado é cortada pela morte do pai e as decorrentes dificuldades financeiras. A família mudou-se para a rua de São Marçal 104, uma daquelas típicas e íngremes calçadas lisboetas que conferem à cidade um carácter tão arcaico e familiar, também deste andar mais pequeno e das suas janelas mais estreitas, se vê o Tejo, mas um Tejo longínquo. Ao pé, há a Praça das Flores, popular e ruidosa, com as tabernas e lojas de carvoeiros e sucateiros.

Depois da passagem por África e ao seu regresso, o poeta mudou de casa pelo menos 15 vezes.

Mas Fernando Pessoa viveu nestas casas? A sua vida é inteiramente mental e desenrola-se no interior dos seus personagens, quer esteja no seu convívio em Lisboa, nos cafés, nas tabernas ou estando a observar uma cidade mais escondida onde o convívio é feito de outra forma, muitas vezes fugindo à solidão. As mulheres de rua que hoje podem até ser acompanhantes de luxo, eram vistas como o lixo da cidade, mas muitas vezes serviam de amparo e consolo aos solitários e aos marinheiros desta Lisboa virada ao rio, com cheiro a mar.

“Desde criança tive a tendência para criar em meu torno um mundo fictício, de me cercar de amigos e conhecidos que nunca existiram...”

Os seus Locais de passagem e convívio em Lisboa...

A zona de Lisboa em que Pessoa se move e pensa é a Baixa, centro da cidade junto ao rio que tinha ficado completamente destruída pelo terramoto de 1755, o coração de Lisboa fora reconstruído pelo iluminista Marquês de Pombal, que em vez de ruas estreitas e de casas amontoadas, abriu ruas amplas que se cruzam geometricamente.

Nesta zona, três importantes artérias, a da Rua Augusta, da Rua do Ouro e da Rua da Prata ligam a imponente praça do Terreiro do Paço com a mais central praça do Rossio.

Pessoa no seu convívio em Lisboa frequentava esta zona comercial onde, ao lado dos grandes armazéns, alguns desaparecidos com o grande incêndio do Chiado de 1988, dos escritórios e das agências marítimas, existiam os cafés que invadiam alegremente os passeios com as suas mesas. É nestes cafés que Pessoa chega ao convívio com grandes figuras da época, da cultura portuguesa. Destacam-se as duas “Brasileiras”, a do Chiado e a do Rossio. E ainda o “Café Martinho”, no Largo do Regedor.

O Modernismo português, muito dele invenção de Fernando Pessoa, nasceu nestes cafés, destaca-se Orpheu que embora a redação tenha sido na Livraria Brasileira da Rua do Ouro, foi planeado, discutido e realizado à mesa destes cafés da Baixa.

Ó céu azul o mesmo da minha infância,
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa, de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Se existe, como existe, uma Lisboa popular de Gil Vicente, uma Lisboa boémia de Bocage, uma Lisboa fin-de-siécle de candeeiros e gás de Cesário Verde, também podemos afirmar que existe uma Lisboa de Fernando Pessoa. A Lisboa liberty dos cafés da Baixa, com as suas tertúlias, os seus convívios, a Lisboa elegante e cosmopolita do Chiado e do Largo de São Carlos que confina com a Lisboa laboriosa e pitoresca dos bairros.

“Para o viajante que chega por mar, a Lisboa, vista assim de longe, ergue-se como uma bela visão de sonho, sobressaindo contra o azul-vivo do céu, que o sol anima. E as cúpulas, os monumentos, o velho castelo elevam-se acima da massa de casas, como arautos distantes deste delicioso lugar, desta abençoada região.”

O convívio em Lisboa aos olhos de Fernando Pessoa

O convívio de Lisboa de Fernando Pessoa é, sobretudo, de uma cidade reconstruída dentro de uma obra literária. Dir-se-ia independente da Lisboa exterior onde essa mesma obra foi escrita. É uma Lisboa temporal cheia de pontos de referência da sua época, muito diferente da cidade que hoje vemos e muito diferente da cidade turística que queremos dar a ver, com todas as singularidades e fascínios de uma cidade onde abundam os locais de emoção noturna, mais evoluídos, muitas vezes tendo acabado com o simbolismo de uma acompanhante de luxo!..., que para quem chegava, apesar do seu aspecto, era um porto seguro.

A Lisboa que Pessoa viu. Cafés literários, ruas com pregões, o Rossio barulhento de vozes, a Baixa dos escritórios de representações, o mercado central na Praça da Figueira, o oriente situado no eixo da Avenida Almirante Reis e carros eléctricos para todos os pontos cardeais é uma Lisboa intemporal que habita a sua obra e que nasceu a partir daqui. Transcendeu tudo isso, mas teria sido impossível noutra cidade qualquer.

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.

Referências:
http://casafernandopessoa.cm-lisboa.pt/

02 Out 2017
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Mensagem Re: Convívio em Lisboa – Segredos em Pessoa
Quem és tu Tanita que com esta entrada tens tudo para te tornares a minha preferida?

02 Out 2017
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Mensagem Re: Convívio em Lisboa – Segredos em Pessoa
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17 Nov 2017
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