Aviso Oficial
Encerramento das Atividades do GP-PT • Transição para o TDPT
Publicado pela Administração
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DANTE
Registado: 16 Mar 2007 Mensagens: 177
TD's nos últs 90 dias: 0
- Voyeur
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 A revelação
Ele acordou assustado, pensava ter ouvido o estampido seco de um tiro. Seu corpo doía, seus olhos não conseguiam fixar um ponto, tudo girava numa vertigem nauseante. Tentou controlar a respiração enquanto ainda estava deitado sob a marquise.
Devagar, começou a levantar-se. Equilibrava-se apoiado numa parede. Não sabia onde estava, sua mente era um embaralhado de imagens desconexas. Ergueu-se.
À sua frente, a fachada envidraçada de um banco devolvia-lhe seu reflexo. Aproximou-se. Sua face era marcada por sulcos e desenhos de rugas profundas, seus cabelos se torciam num emaranhado grisalho e amarelo. Não se reconheceu.
Como por impulso, iniciou um caminhar lento, pausado, sem saber aonde iria. Arrastava consigo os farrapos que o cobriam. Um cheiro de suor e álcool exalava da sua pele invadindo suas narinas, um incômodo que ele desprezava.
A noite abafada fazia seu rosto brilhar banhado pela própria transpiração. Suas pernas o guiavam, fraquejavam vez ou outra, mas conheciam os perigos das horas de treva, não podiam parar. Entrou por uma longa avenida e seguiu em frente.
Tentava lembrar-se... Mas do quê?
Flashes explodiam em sua memória: uma criança, uma mulher, alegria... Tiros! Seus ouvidos sempre ecoavam tiros que o roubavam dos sonhos.
Os pés ardiam, mas não podia parar. Apenas sabia que não podia parar. Continuou marchando, cambaleante, pela avenida. Às vezes, curvava-se, sentindo sua barriga contrair como que atravessada pela lâmina gelada de uma faca. Tinha fome.
Queria lembrar... Mas para quê?
Uma brisa morna soprou em seu rosto e acariciou seus cabelos como se fossem as mãos generosas de um Deus. Mas ele não recordava o que era fé. Seu mundo era concreto demais para permitir alguma crença. Seu Deus era o Nada.
Lixo, disso ele não esquecera. Do lixo extraía seu alimento. O lixo era sua sobrevivência. Remexeu os sacos pretos recostados à beira de um poste de frente para um botequim que lhe parecia familiar. Mastigou as migalhas e os pedaços do que era comestível. Sede, tinha sede...
Um carro começava a encostar o meio-fio. Movido pelo instinto, correu para ajudar o motorista na manobra. Sinalizava, humilde, esperando que o motor silenciasse. O vulto de um jovem saltou do veículo estendendo-lhe uma nota de dinheiro. Ele abaixa a cabeça, submisso, sua forma de agradecer.
Vai ao balcão do bar, pede uma aguardente e bebe num só gole. Volta a sentir o sangue circular nos membros entorpecidos e um suspiro de vida emerge do seu peito.
Recomeça a jornada pela avenida comprida. Passo a passo, percorre seu descaminho. A madrugada já ia alta. Ele força a visão, tenta focar o horizonte no negrume do asfalto. Inútil. Deve continuar pisando adiante.
Figuras humanas andavam ao seu redor, ele os via, mas não era visto. Não compreendia. Quem era o fantasma? Ele ou a turba indiferente?
Gotas frias o atingem do céu, a chuva desaba de repente. O calor se desprende da pista, a água escorre como cachoeira pelas reentrâncias do seu corpo e se mistura à lama dos seus trapos. Um alívio percorre seus sentidos, era o bálsamo que faltava.
Ajoelha sucumbindo ao cansaço. Sente uma ânsia de choro, mas esquecera o que eram lágrimas, seu mundo era seco demais para consentir compaixão.
Rasteja até um terreno baldio e vai abrigar-se numa grande manilha abandonada ali. Estende-se exausto.
Precisava lembrar... Mas por quê?
Fecha os olhos e os ecos de tiros assombram seus ouvidos. Lembra que quer viver e que amanhã irá alcançar o fim da avenida. Lá encontraria as respostas, ele sabia...
** Dedico esse texto despretensioso a um mendigo que amanheceu morto numa das esquinas do Rio de Janeiro. Seu nome era Mauro e eu o conheci. Espero que tenha encontrado a paz.
DANTE
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| 16 Mar 2007 |
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Radar
Registado: 15 Nov 2006 Mensagens: 11757
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 Re: A revelação
Confrade Dante este para mim será um dos seus melhores escritos de sempre Demonstrando sim os terriveis acontecimentos do dia a dia dessa grande metropole que é o Rio de Janeiro Muito forte este escrito,mas enfim é, e sera sempre uma dura realidade presente no dia a dia dessa maravilhosa cidade Com estes infurtunios salpicando a sua intrinseca beleza Um muito mas muito Obrigado pelo seu depoimento Espero que com eles nos dê a conhecer melhor seu pais, e nomeadamente sua maravilhosa cidade
Um forte abraço meu amigo
Radar
_________________ ...ايام ليأخذ كل شيء
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| 16 Mar 2007 |
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DANTE
Registado: 16 Mar 2007 Mensagens: 177
TD's nos últs 90 dias: 0
- Voyeur
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 Re: A revelação
Agradeço as palavras e a leitura, amigo Radar.
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| 05 Mai 2007 |
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