Acho piada que ontem à noite vi, num café, um gajo que não conheço, e tive de ir cumprimentar o gajo.
Há uns anos eu costumava ir ver futebol com um amigo a esse café! É daqueles típicos onde se junta montes de malta a ver a bola, em que não há espaço sequer para um gajo conseguir ir à casa de banho. A malta nem se levanta para ir fumar um cigarro.
E este gajo às vezes aparecia lá.
Ficava sempre sozinho, meio tímido, meio encolhido, comia qualquer coisa, vi um bocado de futebol e ia embora. Quase nem se dava por ele.
Uma vez, estava a dar futebol, houve um golo, e automaticamente entraram 3 gajos aos berros no café. Parecia que vinham zangados com a vida. Berraram, insultaram, disseram palavrões, gritaram, esbracejaram. Pareciam doidinhos. Os gajos além de terem aspecto de malandrões, tinham aspecto de durões e 2 deles eram granditos. Foi tudo tão rápido e inesperado que ficaram todos sem reacção. A malta nem sabia se havia de ver a repetição do golo ou dar atenção aos 3 doidos.
Mas um velhote, bem velhote, todo catético, disse a um deles "Oh homem... cale-se!"
Um dos doidos instantaneamente pega numa garrafa, levanta-a o ar, dirige-se ao velhinho com ar agressivo, e começa aos berros a ameaçar o velhote!
O tal gajo que eu ontem fui cumprimentar, e que estava sentado numa mesa atrás do velhote, reagiu à velocidade da luz.
Levanta-se muito rapidamente, pega numa garrafa, olhou com ar de desdém para o doido da garrafa, e disse muito calmamente, com um sangue frio quase assustador, que no meu entender revelava que ele não devia ser propriamente inexperiente em situações de combate:
- "Pronto, agora tu tens uma garrafa na mão, eu tenho uma garrafa na mão, e então?... Como é que vai ser?"
Não disse mais nada. Limitou-se a esperar.
O gajo, que passava sempre despercebido, que até parecia meio xoninhas, e que sempre me tinha parecido ser só gordo, tinha cerca de 1 metro e 90, e em pé, de braços abertos e peito inchado, parecia uma montanha. Era como se um koala pequeno, gordito e pachorrento se tivesse transformado num Big Foot muito agressivo.
E afinal nem sequer era muito gordo. Era muito encorpado, isso sim, e fiquei com a impressão que o tipo de roupas que habitualmente vestia até deviam esconder muito musculo.
Quando vi o gajo a fazer frente aos 3 doidos, pensei: "Estes coitados não vão saír daqui inteiros".
É que assim que o grandalhão reagiu, reparei que até já estava tudo à espera que aquilo começasse para ir "molhar o bico". A malta já estava a ajeitar as cadeiras para se poder levantar facilmente, a meter as pernas e o corpo de modo a poderem levantar-se rapidamente.
Eles de repente estavam com dois problemas, apesar de eu achar que eles só repararam num deles, que era o grandalhão que lhes fez frente, e que parecia que mesmo sozinho conseguiria arrumar com os 3.
Os 3 doidos ficaram todos baralhaditos. Ainda tiveram uma ultima descarga de adrenalina, que provocou uma "meia reacção" muito tímida, mas imediatamente viram que estavam metidos numa enrascada. Os "mauzões" costumam reconhecer aqueles que são piores que eles. E aquele gigante parecia um osso bem duro de roer, e pouco preocupado pelo facto de eles serem 3.
O doido da garrafa ainda balbuciou qualquer coisa muito baixinho, mas acabou a pedir desculpa, e foram-se os 3 embora muito rapidamente.
A malta do café bateu palmas, o grandalhão disse ao velhote para não se preocupar, e lá se sentou ele novamente, todo encolhido como de costume, mas com um sorriso de orelha a orelha, enquanto a malta sentada ao redor dele lhe dava os parabéns.
Ontem quando o cumprimentei, falei-lhe daquela noite. Ele lembrava-se.
Todo bonacheirão, sempre com aquele ar meio encolhido, mas simpático e meio a rir, disse:
- "Cães que ladram não mordem".
E depois disse:
- "Eu não ladro,...".
E eu percebi... o que ele não disse.
Teve piada!
